Governos são lentos por natureza, mas fundamentais para sairmos desta fria…

Por Nelmara Arbex – Março 2010

No chamado “campo da sustentabilidade”, há sempre espaço para discutir o papel dos governos locais e nacionais em garantir a qualidade de vida das pessoas no presente e no futuro.

Na Europa, há uma tendência em acreditar que são os governos que precisam definir as regras do jogo dos negócios e educar os indivíduos para criarmos e mantermos um futuro sustentável, em que as atividades humanas aconteçam sem destruir irremediavelmente os recursos naturais e ainda assim satisfaçam as necessidades fundamentais de todos os indivíduos hoje. Tendência similar ou mais acentuada se observa na China ou outros países da Ásia, onde os governos são absolutamente definidores de planos para o presente e futuro de todos.

Na América Latina, onde os governos são menos poderosos ou menos incisivos no planejamento, em geral tendemos a relativizar ou minimizar seu papel na solução dos nossos problemas e na construção do nosso futuro.

Isso é um erro. Não há como substituir os governos em seu papel de coordenadores e planejadores da implementação de soluções para problemas de curto e longo prazo. Seja em tempos de pleno “crescimento econômico”, seja em momentos de crise.

Acabamos de vivenciar em um ambiente de crise financeira e de sustentabilidade o papel de governos poderosos – como os de Barack Obama e Angela Merkel – buscando soluções emergenciais de curto prazo e coordenando a implementação de soluções que envolvem vários grupos da sociedade.

No nosso dia a dia fica bastante claro o papel decisivo que o governo tem na garantia de nossa qualidade de vida, segurança, acesso a transporte, educação, saúde, lazer, e no planejamento do futuro de todos esses aspectos nos próximos anos e décadas.

Pensando em sustentabilidade, esse papel não é diferente. Os cidadãos podem e devem individualmente fazer o possível para contribuir para um futuro melhor e proteger recursos naturais, como a água – como tratei no artigo Coragem! Tudo é produto da nossa incrível imaginação.

É o governo que deve cumprir o papel de regular o uso da água, proteger esse recurso para todos os cidadãos e proibir processos de produção ou serviços que ameacem nosso futuro. Sem a ação do governo regulamentando e fiscalizando processos irresponsáveis, não teremos chance de ter mudanças em grande escala que melhorem radicalmente o impacto da nossa vida sobre a vida da geração que já está aí e das próximas.

Mas governos são lentos por natureza. Ou porque são máquinas monstruosas ou porque precisam ter certeza de que todos os interessados têm opinião formada sobre o tema antes de agir. Mas como não temos tempo sobrando para essa história de “garantir o futuro das próximas gerações”, a questão do engajamento do governo é urgente. Mais que urgente no nosso caso.

Assim, não há muitas alternativas no campo governamental para o cidadão responsável senão propor e cobrar respostas para essas perguntas dos nossos governantes e nossos representantes. Sem isso não há como avançar.

Se alguém me perguntasse, diria que, para começar, os seguintes temas deveriam estar na agenda de qualquer governo que se propõe a pensar nas gerações atuais e futuras:

- Compras: o governo é o maior comprador do Brasil em todos os níveis – ou seja, o dinheiro dos nossos impostos é usado para compras que deveriam nos beneficiar. Por lei, o governo deve comprar sempre o que é mais barato. Mas isso deveria ter limites, pois se é barato, mas causa um problema ambiental ou social enorme, não deveria ser pago com dinheiro público, certo? Assim, as regras e processos de compras deveriam ser transparentes e contemplar critérios sociais e ambientais.

- Plano de desenvolvimento local: qual o plano de desenvolvimento humano e econômico para a Amazônia de forma que tenhamos floresta e animais em 50 anos? E os outros ecossistemas? Qual o plano para eles? Qual o plano de desenvolvimento para que São Paulo e outros centros urbanos sejam cidades muito melhores do que são hoje e possam ter água e alimentos sem destruir seus arredores? E os planos de desenvolvimento para as periferias? Como serão os bairros periféricos em 50 anos?

-Recursos naturais: Qual o plano para o fim da pesca industrial e a adoção da criação em cativeiro para termos peixes de todas as espécies em 50 anos?

- Escola pública: qual o plano para formarmos os jovens que estudam na rede pública como gestores do nosso país, cheio de desafios impensáveis? O que fazer para termos a melhor escola pública do mundo em 50 anos?

- Armas: qual o plano para acabar com o tráfico ilegal de armas, os altos índices de assassinatos e a produção de algo que usa energia e metais valiosos para um futuro de recursos tão escassos?

Seriam estes pontos um bom começo para um governo sustentável tratar?

São eles concretos o suficiente? O que você acha?

Pergunte aos seus candidatos.

regularbomótimo
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