Mais uma indecência – menos chances

 [O texto aqui publicado – de autoria de Roberto Waack a convite de Nelmara Arbex – se refere à coluna de Delfim Netto publicada na revista Carta Capital de 25 de agosto de 2010, chamada Mais uma Indecência]

 Por Roberto Waack

Surpreende-me o tom jocoso e a falta de informação do ex-ministro Delfim Netto sobre o assunto. Pelo que sei, é um homem que lê muito. A chocante frase “Legião de pilantras que se apresentam como paladinos da Amazônia” dá o tom do artigo.

 Esse velho discurso cansa, e embora o ex-ministro informe não se tratar de teoria conspiratória, acaba sendo. Afinal, quem está por trás dessa legião? Para mim, é evidente que nosso comportamento com relação à Amazônia deve ser reprimido. Afinal, nós, essa legião de brasileiros, não se mobiliza (e nem se preocupa com isso na hora de votar) em estruturar um plano para esta região do Brasil. E está mais do que na hora.

 Há algum tempo contei 11 ministérios envolvidos com a Amazônia e não consigo vislumbrar o que o país pretende fazer com a região, quase metade de seu território. São inúmeras contradições, sem nenhuma articulação ou tentativa de harmonização. O último esforço resultou na saída da Marina Silva do MMA – creio que ela foi a única pessoa neste governo que se preocupou seriamente com o assunto. Delfim fala de controle internacional das riquezas amazônicas… De onde surgiu isso? Escreve sobre “gritaria das ONGs internacionais”, sem entender que as WWFs e Greenpeaces da vida são tão internacionais quanto nacionais, com membros brasileiros, dirigentes brasileiros e que, sim, seguem uma agenda global, supranacional, voltada para melhorar as condições de uso do planeta, do qual, por incrível que pareça, o Brasil faz parte.

 Essa história de ONGs financiadas por governos e empresas internacionais é batida e sem fundamento. O Brasil é, sim, um dos maiores devastadores do planeta. Ponto! E o mundo tem que se preocupar com isso sim. Ponto. Assim como o mundo deve se preocupar com o massacre humano em alguns países da África ou com a proliferação de armas nucleares no Oriente Médio. Absurdo é repetir que o mundo desflorestou no passado e que consequentemente temos o direito de fazer o mesmo.

 Defender a idéia de que o Brasil foi eficiente na conservação de florestas em comparação a outros continentes é absolutamente simplista. Por algum motivo, nosso país acabou ficando com mais florestas que outras partes do mundo. Não por conta de uma nobre política de preservação, mas por algum acaso histórico (não me atrevo a entrar nesta discussão agora). Defender uma “equidade desflorestadora” é o mesmo que reconhecer que não se aprende nada com a história, com a evolução humana, com o processo civilizatório. É inacreditável ver a defesa da ideia de que já que “eles”, os conspiradores, desflorestaram, arrasaram suas terras, a gente também pode fazer essa burrice. Ou seja, os raças puras nacionais defendem uma burrice ao quadrado!

 Algumas “ONGs internacionais”, mesmo as que representam lobbies como a citada no artigo (fazendas aqui, floresta lá – uma organização sem relevância alguma para o planeta!), têm todo o direito de brigar por suas ideias. Cabe a nós o direito de defender nossa posição. Claro! Mas não com argumentos tolos como os usados, sintetizados na tabela de conservação de florestas.

 O Brasil pode ter a agricultura mais competitiva do mundo sem desflorestar mais. Pode ter uma agricultura que convive com florestas como em nenhum local do planeta. Pode ter uma agricultura hipercompetitiva, técnica, eficiente no uso do solo, dos recursos hídricos, com baixos impactos sociais, com balanço da emissão de carbono muito interessante, sem ter que brigar por argumentos como esse. De novo, se “eles” fizeram bobagens ambientais, provavelmente por não saberem o que isto significaria, ou por viverem em uma época em que a sociedade civil não se articulava em ONGs com a seriedade de algumas das que o ministro engloba na “legião de pilantras”, não justifica defender um país que não tem demonstrado capacidade para garantir a preservação de um bem universal. Prefiro um vira-lata com consciência do que um raça pura míope, defendendo seu quintal como um Pit Bull insano. Claro que temos que aceitar sugestões de outros países, de outras organizações, de quem quer que seja. Podemos aprender muito com isso. Se tivermos uma política decente na área socioambiental, a defesa dos nossos interesses será muito mais simples do que usarmos argumentos como o citado.

regularbomótimo
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