Água nos negócios

Por Nelmara Arbex – Maio 2010

Em 2004, Pepsi e Coca-Cola fecharam fábricas na Índia, pois suas atividades competiam com produtores rurais locais e comunidades pela água disponível na região.

Difícil imaginar processo produtivo que não utilize água como agente ou como matéria-prima.

Utilizando cerca de 70% do total de recursos hídricos do planeta estão os processos de produtos que tem água “embutidos”, como toda a atividade agrícola e pecuária, comestíveis industrializados, etc. Depois podemos citar os negócios que foram construídos literalmente ou basicamente engarrafando água. Neste grupo estão água engarrafada, cervejas, refrigerantes, produtos de limpeza, produtos de beleza e similares. Finalmente vamos pensar nas atividades que utilizam muita água no processo, como mineração, indústria de papel, de couro, siderurgia, entre outros.

Olhe bem à sua volta e você vai perceber que, com exceção de alguns objetos a base de plástico, não escapa muita coisa. Nem as partes dos circuitos do computador com seus inúmeros minerais ficam fora desta .

Pois bem, todos esses processos industriais utilizam os recursos hídricos disponíveis em suas localidades. Esses recursos não são infinitos. Esse fato coloca aos negócios alguns desafios: como vamos gerenciar o uso desse recurso de forma a não faltar aos consumidores locais? Como podem as empresas trabalhar eficientemente no uso da água? Como se pode saber quanto de água está disponível para que o gerenciamento seja possível?

Com população e economia crescentes, o Brasil vai aumentar ainda mais a pressão sobre os mananciais e fontes, já bastante castigados. Adicionalmente, falta de políticas de gerenciamento da utilização de fertilizantes, de tratamento de esgotos e outros poluentes estão dificultando ainda mais a manutenção de fontes limpas para consumo humano e industrial. Muitos países precisam de mais água para manter seus padrões de consumo do que têm disponível, o que ainda não é o caso do Brasil. Mas isso não nos livra do problema, já que adicionalmente o país ainda sofre a pressão de exportador de calibre mundial em vários setores críticos, como cereais, carnes e frutas, exportando – na prática – toneladas de água.

Na minha opinião, há três frentes de ação principais no campo dos negócios. A primeira frente tem a ver com o desenvolvimento de soluções que tornem os processos produtivos muito mais eficientes em relação ao uso, reciclagem e limpeza da água utilizada como agente nos processos. Este passo vai exigir revisões , às vezes profundas, dos processos.

Mas redução dos impactos é apenas uma das vias para o desenvolvimento de soluções no campo da sustentabilidade. É preciso inovar de verdade. Por isso, a segunda frente se refere ao desenvolvimento de inovações que reduzam o engarrafamento e transporte de água da forma como algumas empresas o fazem, criando, por exemplo, produtos que pode ser misturados com água na casa do consumidor. Para muitas empresas, isso significa reeducar o consumidor e mudar a formulação dos produtos, o que exige investimento importante na área de desenvolvimento de novos produtos e marketing.

Também inovadora – e talvez ainda mais desafiante -, a terceira frente esta relacionada com o desenvolvimento de tecnologias para obtenção de água sem envolver transporte (e perda), para mensuração das reservas locais e gerenciamento público do recurso. Essas tecnologias podem mudar profundamente a forma como o uso da água é gerenciado em regiões urbanas, mas será nas regiões de produção agrícola que tais tecnologias poderão de verdade trazer impactos de larga escala – envolvendo pequenos e grandes produtores.

Para que ações relevantes nessas frentes aconteçam, será preciso desenvolver novas habilidades técnicas em todos esses campos. Num país com recursos hídricos imensos e tão mal gerenciados como o Brasil, que se propõe a ser uma potência movida a energia hidráulica, faria muito sentido ter empresas formando consórcios para promover a formação de tais profissionais e inovação tecnológica, o que colocaria a produção brasileira já na próxima década a frente das mais competitivas do planeta.

Todos esses fatores demonstram que o gerenciamento do recurso água está se transformando num fator estratégico para as empresas e para o desenvolvimento de economias, evidenciando também uma oportunidade para os negócios.

Mais ainda, as empresas também terão que se aproximar dos órgãos reguladores e da sociedade para ser parte da solução dessas questões, antes que sejam simplesmente reconhecidas como parte do problema e sejam obrigadas a fechar suas portas… como na Índia.

Veja também:

The UN World Water Development Report

The Business Opportunity in Water Conservation, McKinsey Quarterly

Global Water for Sustainability Program

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