Éticas máquinas de destruição

Por Nelmara Arbex – Maio 2010

O desafio não é pequeno: criar e manter negócios lucrativos, proteger os recursos naturais e a vida, contribuir para uma sociedade justa e próspera – tudo ao mesmo tempo.

Isso definitivamente não é matéria das escolas de negócios (deveria ser, como disse Blair Sheppard, da Duke Business School para a McKinsey Quaterly de janeiro), nem foco da remuneração de executivos das empresas quando definem suas metas.

Mas é o desafio real colocado hoje para as empresas e seus líderes. Por quê? Porque são elas – grandes ou pequenas – que compram, vendem e fabricam todos os serviços e produtos que necessitamos ou desejamos, movendo matérias-primas e recursos naturais por todo o planeta, desenvolvendo tecnologias, oferecendo ou reduzindo postos de trabalho, pagando impostos, ajudando a definir a qualidade de vida do presente e do futuro. Assim sendo, são o principal agente da implementação do modelo de desenvolvimento vigente em todo o mundo, que poderia ser resumido da seguinte forma: quanto mais produzimos e consumimos, mais ricos somos, maior o produto interno bruto do nosso país – um importante fator de definição da qualidade de vida do presente e do futuro.

A atual situação ambiental e social, mundial e brasileira, demonstra que esse modelo de desenvolvimento está resultando em um cenário social e ambiental assustador.

Vale ressaltar que muitas empresas têm feito um esforço enorme para entender a relação entre seu modelo de negócios, suas decisões diárias e seus impactos econômicos, sociais e ambientais, perto e longe dos locais onde atuam. E têm mudado – ou tentado seriamente mudar – a forma como realizam seus negócios. Por exemplo, analisando a origem de suas matérias-primas e da energia (de onde vêm e como são produzidas), substituindo materiais de produção nocivos à saúde dos consumidores ou ao meio ambiente, mudanças na logística (pré e pós produção e distribuição ou transporte) para reduzir impactos, gerenciamento de resíduos (antes, durante e depois da produção ou do serviço oferecido), apoio à saúde e à qualidade de vida de seus empregados e de alguma comunidade.

Mas o ponto mais crítico da atualidade é entender que tudo isso é somente o começo de um esforço de transformação. As mudanças que os negócios devem sofrer para realmente se tornar parte de um novo modelo de desenvolvimento vão além desses esforços. Se os executivos e líderes dos negócios não entenderem isso, estaremos presos à chamada “armadilha ética”: implementam-se ações para melhorar a vida de todos, para mitigar impactos negativos, mas a destruição continua – embora mais lenta e com princípios éticos.

Profissionais motivados e bem intencionados devem manter a direção de seus esforços para ir além, procurando mais do que tudo formas inovadoras de criação de negócios, que não somente desacelerem ou atenuem os efeitos colaterais das atividades empresariais, mas que contribuam de forma definitiva pra criar um novo capítulo na história do desenvolvimento, negócios com impacto ambiental econômico e social positivos para todos.

Vamos precisar de todos os cérebros e inspirações, pois não sabemos como fazê-lo, e o mundo depende disso. Como foi dito no início: o desafio não é pequeno.

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