O futuro da China e de seus negócios – sustentáveis?

Por Nelmara Arbex – Abril 2010

Olhe à sua volta e leia suas etiquetas. Quase tudo que você toca ou veste foi feito totalmente ou parcialmente na China.

Isso pode de alguma forma ser sustentável? Não sei ainda. Mas não considero que seja impossível e acho bom acompanharmos de perto os movimentos chineses, pois afetam o presente e futuro do planeta e de seus habitantes.

Fui à China em 2008, um mês depois das Olimpíadas, e lá fiquei por duas semanas. Quase não havia turistas. Na ida, sentei-me no avião ao lado de um empresário belga que fazia negócios com empresas têxteis chinesas. “Esse é um povo que só pensa em negócios!”, ele dizia.

Beijing, além de limpa e muito bem organizada, tinha calçadas brilhantes e uma população que tomava conta de praças e ruas todas as manhãs e noites, com grupos de ginástica e dança embaixo de dezenas de viadutos – mesmo com as nuvens estranhas que traziam neblina nas primeiras horas do dia.

Fui à China convidada para dar aulas num programa de uma semana sobre responsabilidade social corporativa organizada por um centro de informação econométrica, em parceria com universidades chinesas e europeias.

Eu e minha tradutora enfrentamos uma audiência curiosa e intensa, parte presencial de um público mais amplo, espalhado por três outras cidades, que acompanhavam o curso por circuito de teleconferência. Era também a época do escândalo do leite contaminado, que levou milhares de crianças aos hospitais. Tentei cuidadosamente não levantar o exemplo diretamente durante as aulas. Não precisei. Os alunos falaram disso com muita opinião.

Na noite da minha chegada, participei de um jantar com o diretor do centro, que me explicou a China por meio de números que ele conhecia de cor: quantas cidades tem o país, quando a expansão urbana vai parar, quantas serão as zonas de transição, quanta área permanecerá agrícola, onde a população estará em 10 anos, como as famílias serão então, etc. Também me contou das parcerias que o governo chinês faz com governos europeus para completar suas bases de dados sociais e econômicos com dados ambientais. Era também a época em que a China estava planejando a limpeza de cinco de seus maiores rios (para saber mais, clique aqui – está em inglês).

Saí dessa conversa muito bem impressionada. Não somente pela qualidade do conteúdo da conversa, mas também pelo que ela representava – para mim, como fala e pensa alguém de um país que planeja.

Num dia de feriado, fui andar numa zona comercial, que também tinha bibliotecas e livrarias. Observei fascinada, por horas, milhares de jovens com roupas e cabelos modernos se espremendo nesses espaços, passando o dia livre com livros e livros nas mãos. E indo para o metrô com sacolas cheias de livros. “Eles estão se preparando”, isso era o que eu pensava. Estão se preparando para dirigir esta nação, seus negócios, seu futuro e o futuro de muitos outros.

Apesar de a China ter um PIB quatro vezes menor que o norte-americano, difícil imaginar um país que possa viver sem relações comerciais com esta nação. E como nós – habitantes do planeta – queremos mais de suas roupas, celulares, turbinas eólicas, painéis solares, celulares, entre milhares de outros itens, a China se prepara para uma expansão inédita: vai à África.

Segundo a imprensa internacional, a relação comercial entre a China e os países africanos cresceu 30% na última década e vai crescer mais, muito mais. Em acordos com Zâmbia, Congo e Angola, a China propõe – além de explorar riquezas naturais – trazer benefícios nunca antes imaginados por um país colonialista ou capitalista ao continente. Faz parte de seus acordos a construção de rodovias, escolas, universidades, hospitais e treinamento intensivo de mão de obra local. E a crise atual não vai reduzir seu ritmo, ao contrário, como declara o ministro chinês de relações exteriores Yang Jiechi: “Nós vamos continuar e acelerar o programa o máximo possível” (veja mais aqui – está em inglês)

A “negociação construtiva” da China com a África faz o desenvolvimento da China mais “sustentável”? Fazem esses acordos o mundo melhor para todos nós?

Acho cedo para responder essas perguntas, mas a resposta não é nem será óbvia. Será que nossas empresas podem aprender algo com esse modelo? Deveríamos expandir nossos negócios seguindo o mesmo modelo?

Parece que era isto mesmo que dizíamos, não? Empresas devem ir às regiões para explorar seus recursos, sua mão de obra, benefícios financeiros, ou o que seja, desenvolvendo planos de longo prazo de desenvolvimento local, certo?

regularbomótimo
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