Entrevista Monica Araya – Os problemas da COP 15 (2)

Fevereiro 2010

Nelmara:

Como se desenvolveu a elaboração da proposta final? O que você sentiu quando uma plenária acabou? O resultado era previsível?

Monica: Eu tive sentimentos muito misturados.

Deixe-me começar com o processo:

Num primeiro passo, o Acordo foi definido nos bastidores, principalmente pelos EUA e pela China, mas juntamente com Índia, Brasil e África do Sul – os últimos quatro, nações sob o bloco BASIC. A União Europeia (UE) – ou, para ser concreta, Sarkosy, Brown e Merkel – foram consultados, mas, principalmente, tinham a opção de aprovar ou rejeitar o acordo de Copenhagen, mas eles não foram os principais arquitetos da proposta.

Essa exclusão da UE do grupo principal foi um amargo tapa na cara da diplomacia europeia. A Europa se vê como um líder do clima, por causa de seu compromisso inicial com Kyoto, e, na minha opinião, eles ainda não se recuperaram totalmente desse episódio. Mais tarde naquela noite, a UE (e outros) concordaram com a proposta, que foi então levada para a plenária final.

Lembro-me da confusão nos corredores.

Então eu vi uma improvisada coletiva de imprensa realizada pela delegação brasileira aprovando o Acordo, pois eles haviam sido consultados. Foi aí que eu percebi que o mundo estava mudando, porque foi a primeira vez que novos países, como Brasil ou África do Sul, estavam por dentro das decisões chave.

Mas a confusão prevaleceu – juntamente com um sentimento de indignação por países que tinham sido excluídos e pelos representantes não-governamentais. Isto me leva para o meu próximo ponto.

Em segundo lugar, é preciso que se diga que houve um problema com o “estilo de gestão da presidência dinamarquesa”.  O papel da presidência é nomear alguns representantes e rascunhar os acordos a serem apresentados – ou até já concordar com partes dele. Esse é o seu trabalho! E tudo deve ser feito com inteligência e delicadeza nos bastidores.

Uma das maiores surpresas da COP 15, pelo menos para mim, foi testemunhar que os dinamarqueses não conseguiram a confiança dos demais, principalmente por causa da opção de dar cargos importantes aos “amigos”, principalmente dos EUA, perturbando já de início os outros.

Mas vamos lembrar também que as negociações sobre o clima sempre enfrentaram desconfiança aguda e a presidência dinamarquesa apenas ampliou o problema.

E finalmente a plenária final se tornou um circo lamentável.

Os presidentes e primeiros-ministros de países chave concordaram em endossar o Acordo de Copenhagen, enviaram-no para a Plenária Final e, em seguida, voaram de volta para suas capitais. Final feliz, certo?

Bem, foi quando o drama Copenhagen começou. Era quase meia-noite da sexta-feira quando a plenária começou. Todo mundo estava cansado e, eu diria, afetado pelas emoções. Claramente, o Acordo de Copenhagen não era o que o planeta precisa para combater as mudanças climáticas, mas, na minha opinião, foi o trabalho da comunidade internacional para fazer o máximo que podia para evitar voltar para casa de mãos vazias. Afinal, todos nós tinhamos estado lá por duas semanas e eu estava esperando que tivéssemos o Acordo como um trampolim para algo maior e melhor ao longo de 2010 e 2011. Então, o que aconteceu em seguida foi quase irreal: alguns países, principalmente do Grupo Alba (Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua e Bolívia), Sudão e Tuvalu tomaram a plenária e disseram que o acordo não era possível.

Alguns dos argumentos eram corretos – reclamaram do processo e do conteúdo de um ponto de vista bem honesto –, mas fizeram isso usando uma linguagem ofensiva. Por exemplo, o representante venezuelano levantou as mãos e gritou que o Norte tinha sangue em suas mãos naquela noite. O Sudão chamou os países desenvolvidos de novos nazistas e falou sobre um holocausto climático. Foi um dos comportamentos mais lamentáveis que testemunhei nos meus quase vinte anos de trabalho em questões de sustentabilidade. Você ganha debates com argumentos e liderança, com pensamento racional, e não por meio de insultos.

Sim, o Acordo de Copenhagen era fraco, mas às 2 da manhã o trabalho da plenária deveria encontrar uma solução e não paralisar a COP 15 insultando a todos.

regularbomótimo
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