Entrevista Monica Araya – Os problemas da COP 15

Fevereiro 2010

Nelmara Arbex entrevista Monica Araya – uma das especialistas em finanças climáticas presentes na plenária final da COP 15 –, que dá sugestões sobre o tema aos candidatos à Presidência do Brasil!

Nelmara:

Atualmente se sabe que algumas autoridades no tema Mudanças Climáticas fizeram uma previsão errada sobre o derretimento das geleiras eternas de algumas cadeias de montanhas, como o Himalaia. O que você acha disso? A demissão dos que estavam à frente dessas projeções é suficiente para recuperar a credibilidade dos especialistas?

Monica: Minha resposta é muito simples. Foi um erro lamentável. É importante obter os dados corretos e admitir erros publicamente. A imprensa (e os céticos do clima) explora esse caso desproporcionalmente, confortavelmente e de forma irresponsável. As alterações climáticas, juntamente com a pobreza extrema, continuam a ser os principais dilemas que a humanidade enfrenta agora, e os erros encontrados nas pesquisas científicas não mudaram essa realidade fundamental.

Nelmara:

Você foi ao COP 15 como especialista. Qual era seu objetivo?

Monica: Meu objetivo principal era ajudar a construir a colaboração entre os negociadores para chegar a um acordo sobre a Convenção (UNFCCC) para limitar as emissões da aviação e da navegação – que permanecem excluídos pelo Protocolo de Kyoto –, e fazê-lo de uma forma que gere novas fontes de recursos para as finanças climáticas.

Mas a combinação de resistência por parte da indústria e por parte de muitos negociadores dos países em desenvolvimento destruiu as possibilidades de acordos nesta área.

Nelmara:

Você era uma das 300 pessoas convidadas a assistir a última plenária. Como você foi escolhida?

Monica: A decisão de restringir a participação da sociedade civil foi muito difícil de entender. Foram concedidos 225 crachás para organizações não-governamentais e 75 para empresas. Eu estava no grupo de 225 sortudos. Meu nome havia sido colocado em uma lista (por meio de um processo interno de seleção gerenciado pela Climate Action Network – uma rede que inclui mais de 500 organizações) para cobrir o tema das emissões internacionais de aviação e navegação, e também para ajudar a cobrir tópicos relacionados a países latino-americanos chave.

Nelmara:

Numa outra entrevista, você me contou como a proposta se desenvolveu, explicou como diversos fatores – como o isolamento dos países europeus, a falta de habilidade da presidência dinamarquesa e a opção de “bloqueio” feita por países que estão em geral fora dos comitês internacionais – levaram a uma plenária catastrófica no final.

O que você aprendeu de tudo isso e o que vem por aí para a COP 16?

Monica: Além de tudo o que se revelou mais fundamentalmente – expliquei na outra entrevista –, a paralisia daquela noite também mostrou os dilemas do multilateralismo, em especial no sistema das Nações Unidas, em que um país pode bloquear tudo. Lembre-se: a maioria dos países na plenária apoiou o acordo proposto – entre eles estavam EUA, China, países da Comunidade Europeia, Brasil e dezenas de outros –, mas não foi possível prosseguir por causa da oposição de um punhado de bloqueadores, principalmente do Grupo Alba (Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua e Bolívia), Sudão e Tuvalu.

O resumo de uma noite muito longa – era quase de manhã, logo veio o sábado –, foi decidir “tomar nota” do acordo e pedir o apoio dos países para o documento até janeiro de 2010.

Agora as chances de conseguir um acordo sobre o clima juridicamente vinculativo no final de 2010 são muito pequenas – vai depender muito de o projeto de lei climática dos EUA ser aprovado ou não. A COP 16 no México terá como foco principalmente fazer avançar a agenda das finanças climáticas, uma prioridade fundamental para a presidência mexicana.

Nelmara:

Qual sua sugestão aos governantes brasileiros sobre a questão das políticas governamentais em relação a mudanças climáticas? Em outubro temos eleições no Brasil.

Monica: Meu conselho é muito simples e direto. O governo deve desenhar um plano de desenvolvimento com baixo teor de carbono que deve ter como meta chegar a um Brasil resiliente e redesenhado em 2020.

Para executá-lo, ele pode reunir um conjunto de atores inteligentes, de grupos de interesse e especialistas (em energia, clima, sustentabilidade, finanças, tecnologia e pobreza ou desenvolvimento social), que construiriam um plano de prioridades para o Brasil – se o país estiver de fato decidido a continuar crescendo, mas também reduzindo suas emissões, melhorando sua capacidade de resistência aos impactos do clima e investindo nas pessoas que vão implementar tudo isso.

Esta não pode ser uma estratégia climática projetada por especialistas em meio ambiente. Não. Este é um plano para investir em coerência, em um desenho do futuro da economia. Quanto o Brasil vai precisar investir a partir de agora até 2020? Quanto virá do orçamento nacional? Quanto virá de fontes privadas? Quanto virá de empréstimos?

O Brasil é um país com capital intelectual, humano e financeiro extraordinários. O desafio é criar sinergias dentro do Brasil para fazer uma transformação para uma economía de baixo carbono. Não estamos falando de mudanças incrementais. O Brasil é um país demasiado precioso para simplesmente fazer um pouco de biocombustíveis aqui e um conjunto de projetos ambientais.

Este é o momento de fazer perguntas fundamentais sobre a base da prosperidade que o Brasil quer entregar a seus cidadãos. O Brasil resiliente, o plano de desenvolvimento com baixo teor de carbono para 2020, não deve ser visto como uma execução de um programa ambiental.

A transformação deve ter um roteiro para investimento na prosperidade e na segurança no longo prazo – especialmente para lidar com as perdas e os problemas que certamente aparecerão no caminho.

regularbomótimo
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