O papel da ‘pelada’ na carreira da mulher e na de todos nós

Por Nelmara Arbex – Março 2010

Há anos têm sido analisados os fatores que promovem ou dificultam a promoção das mulheres para cargos de liderança.

Quando coordenei a pesquisa sobre o Perfil Social, Racial e de Gênero das Diretorias das Grandes Empresas Brasileiras, aprendi várias coisas, uma delas foi que, no Brasil, 50% das mulheres que vivem nos centros urbanos e estavam empregadas tinham escolaridade superior a 15 anos, com graduação completa. Mas analisando os números de mulheres em posições de liderança, o resultado foi um fiasco: apenas 6% do total.

Claro que os fatores de discriminação já operam antes de as mulheres chegarem às empresas, mas, olhando os dados de escolaridade e outros aspectos, é difícil discordar de que quando a pirâmide de poder e salários aponta para cima elas são “magicamente” excluídas.

Aprendi também que empresas de grande (e pequeno) porte tem um número crescente de mulheres em posições de gerenciamento sênior, com altos salários, às vezes maiores do que os colegas homens nos mesmos cargos mas, passada a linha “diretores”, elas têm sua representação incrivelmente reduzida. Ou seja: essas empresas reconhecem a performance profissional dessas mulheres, demonstram sua apreciação, oferecem bons salários e benefícios, mas não as promovem a diretoras.

Por quê? Foi pensando nisto que descobri, entre outras coisas, o papel da “pelada” na carreira de todos nós…

Na minha simplista forma de observar as pessoas, tendo a crer que confiamos em pessoas com as quais convivemos, de quem precisamos, com quem atuamos juntos em diferentes situações, observamos, tentamos juntos resolver problemas. Para que essas situações de convivência aconteçam, é preciso passar tempo juntos.

O ambiente cotidiano de trabalho numa empresa oferece alguns espaços para a convivência, mas e nos ambientes fora do cotidiano das empresas que a convivência entre colegas pode acontecer de forma mais expressiva.

É nas viagens, nos papos sobre projetos não diretamente ligados ao trabalho, nas happy hours, nas horas de golfe, clubes, partidos políticos e “peladas” que essa convivência acontece de forma mais natural. A quantidade de tempo que as pessoas convivem nessas situações é muito maior do que no cotidiano atarefado do ambiente de trabalho. Por um número enorme de fatores, as mulheres não são as mais assíduas frequentadoras dessas atividades.

Depois de tantas horas de convívio em ambientes tão reveladores de atributos pessoais e construtores de amizade e confiança, seria mesmo estranho que na hora da promoção dez vezes mais homens viessem à as cabeças destes executivos do que mulheres? Não. Não seria.

Muitíssimo difícil atuar nos fatores que levam a maioria das mulheres a não participar das deliciosas horas de convivência fora do horário de trabalho – como o fato de elas terem maior responsabilidade pelos cuidados com a família ou simplesmente não gostarem de “pelada” no final de semana.

Mesmo que ainda represente um grande desafio, seria mais fácil e infinitamente mais eficiente incentivar líderes realmente inovadores a pensar  em como vão descobrir os talentos de homens e mulheres à sua volta durante as horas apertadas da jornada de trabalho…

Que tal desafiar talentos para bolar novos projetos ou planos de negócios inovadores e sustentaveis?

Ou jogar “queimada” no intervalo do almoço? Ou boliche?

Ou almoçar todos juntos uma vez por semana?

Mas a “pelada” no final de semana e aquelas outras atividades bacanas fora do horário de trabalho não ajudam contra a discriminação.

regularbomótimo
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